A Luz da Palavra

Palavra de Deus 2

6º DOMINGO COMUM

11 de fevereiro de 2018

Leituras: 2Rs 5,9-14  //  1Cor 10,31-11,1  //  Mc 1,40-45

O poder sobre a marginalização

Há quem pense que os mecanismos autorreguladores do mercado são o fim da história, a realização completa da racionalidade humana. E os que são excluídos por esse processo, onde ficam? Não será tal raciocínio o de um varejista que se imagina ser o criador do universo? As leituras de hoje nos mostram outro caminho, o de Jesus: solidarizar-se com os marginalizados, os excluídos, tocar naqueles que a “lei” proíbe tocar, para reintegrá-los, obrigando a sociedade a se abrir e criar estruturas mais acolhedoras, mais messiânicas.

A exclusão virou princípio da organização socioeconômica: quem não consegue competir deve desaparecer, quem não consegue consumir deve sumir. Escondemos favelas por trás de placas publicitárias. Que os feios, os aleijados, os idosos, os doentes de Aids não poluam os nossos cartões-postais!

Em Israel, os leprosos eram marginalizados pela própria legislação. Enquanto não se tivesse constatado a cura, por complicado ritual, o doente de lepra era considerado impuro, intocável. Jesus, porém, toca no homem doente e o cura. Sinal do reino de Deus: Jesus torna o mundo mais conforme ao sonho de Deus, pois Deus não deseja sofrimento nem discriminação. O Antigo Testamento pode não ter encontrado outra solução para esses doentes contagiosos que a marginalização, mas Jesus mostra que um novo tempo começou.

Toda forma de marginalização é denúncia contra nossa sociedade e ao mesmo tempo um desafio. A marginalização é sinal de que não está acontecendo o que Deus deseja. Por isso, Jesus passa por cima das prescrições levíticas, toca no leproso e “purifica-o” por sua palavra, em virtude da autoridade que lhe é conferida como Filho do homem (= servidor de Deus): “Se quiseres, tens o poder de me purificar”.

Este episódio nos fala de um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que Se faz pessoa e que desce ao encontro dos seus filhos, que lhes apresenta propostas de vida nova e que os convida a viver em comunhão com Ele e a integrar a sua família. É um Deus que não exclui ninguém e que não aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação dos irmãos. Há pessoas (quase sempre bem intencionadas) que inventam mecanismos de exclusão, de segregação, de sofrimento, em nome de um Deus severo, intolerante, incapaz de compreender os limites e as fragilidades do homem. Trata-se de um atentado contra Deus.

A atitude de Jesus em relação ao leproso (bem como aos outros excluídos da sociedade do seu tempo) é uma atitude de proximidade, de solidariedade, de aceitação. Jesus não está preocupado com o que é política ou religiosamente correto, ou com a indignidade da pessoa, ou com o perigo que ela representa para uma certa ordem social. Ele apenas vê em cada pessoa um irmão que Deus ama e a quem é preciso estender a mão e amar, também.

Hoje temos leis (umas escritas nos nossos códigos legais civis ou religiosos, outras que não estão escritas mas que são consagradas pela moda e pelo politicamente correto) que são geradoras de marginalização e de sofrimento. Como Jesus, não podemos conformarmo-nos com essas leis e muito menos pautar por elas os nossos comportamentos para com os nossos irmãos.

O leproso, apesar da proibição de Jesus, “começou a apregoar e a divulgar o que acontecera”. Marcos sugere, desta forma, que o encontro com Jesus transforma de tal forma a vida do homem que ele não pode calar a alegria pela novidade que Cristo introduziu na sua vida e tem de dar testemunho.


1º DOMINGO DA QUARESMA

18 de fevereiro de 2018

Leituras:  Gn 9,8-1  //  1Pd 3,18-22  //  Mc 1,12-15

 

Viver a Quaresma

A Quaresma (do latim quadragesima) significa um tempo de 40 dias vivido na proximidade do Senhor, na entrega a Deus. Depois de batizado por João Batista, Jesus se retirou ao deserto de Judá e jejuou durante 40 dias, preparando-se para anunciar o reino de Deus. Vivia no meio das feras, mas os anjos de Deus cuidavam dele. Preparando-se desse modo, Jesus assemelha-se a Moisés, que jejuou durante 40 dias no monte Horeb, e a Elias, que caminhou 40 dias, alimentado pelos corvos, até chegar a essa montanha. O povo de Israel peregrinou durante 40 anos pelo deserto, alimentado pelo Senhor.

Na Quaresma, deixamos para trás as preocupações mundanas e priorizamos as de Deus. Vivemos numa atitude de volta para Deus, de conversão. Isso não consiste necessariamente em abster-se de pão, mas sobretudo em repartir o pão com o faminto e em todas as demais formas de justiça. Tal é o verdadeiro jejum.

A meta da Quaresma é a Páscoa. Por isso toda a comunidade vive este tempo na austeridade material e na riqueza espiritual, preparando-se para celebrar a ressurreição, experiência de alegria pela boa-nova e por Deus que, em Cristo, renova nossa vida.

Converter-se e Crer

Ao longo do caminho que percorreu no meio dos homens, Jesus foi confrontado com opções. Ele teve de escolher entre viver na fidelidade aos projetos do Pai e fazer da sua vida um dom de amor, ou frustrar os planos de Deus e enveredar por um caminho de egoísmo, de poder, de auto-suficiência. Jesus escolheu viver – de forma total, absoluta, até ao dom da vida – na obediência às propostas do Pai. Nós também somos confrontados a todos os instantes com as mesmas opções. Seguir Jesus é perceber os projetos de Deus e cumpri-los fielmente, fazendo da própria vida uma entrega de amor e um serviço aos irmãos.

Ao dispor-se a cumprir integralmente o projeto de salvação que o Pai tinha para os homens, Jesus começou a construir um mundo novo, de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava “Reino de Deus”. Mas… para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer?

Na perspectiva de Jesus, mais que “fazer penitência” o Reino exige “conversão”. Penitência tem a ver com pena, castigo. “Converter-se” é fazer uma ruptura com a mentalidade segundo a qual o mundo não tem jeito, a opressão sempre existiu e sempre existirá, a fé não tem nada a ver com a política, e assim por diante… Para acreditar que um outro mundo é possível, é necessário mudar os esquemas mentais, renunciar a caminhos de egoísmo e de auto-suficiência e recentrar a própria vida em Deus, de forma a que Deus e os seus projetos sejam sempre a nossa prioridade máxima. Implica, naturalmente, modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros. Exige que sejamos capazes de renunciar ao egoísmo, ao orgulho, à auto-suficiência, ao comodismo e que voltemos a escutar Deus e as suas propostas.

A segunda exigência do Reino é “acreditar” no Evangelho. O “crer” não está na aceitação de afirmações teóricas ou na concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas está, sobretudo, na adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projeto de vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida, para, enfim, vencer as “tentações” que nos afastam do sonho de Deus.

Campanha da Fraternidade: caminho quaresmal de conversão e serviço

O objetivo desta Campanha em 2018 é aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a Sociedade, propostos pelo Concílio Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do reino de Deus. Para isso, ela nos convoca a:

  1. Fazer a memória do caminho percorrido pela Igreja com a Sociedade, para identificar e compreender os principais desafios da situação atual;
  2. Apresentar os valores espirituais do Reino de Deus e da Doutrina Social da Igreja, como elementos autenticamente humanizantes;
  3. Identificar as questões desafiadoras na evangelização da sociedade e estabelecer parâmetros e indicadores para a ação pastoral;
  4. Aprofundar a compreensão da dignidade da pessoa, da integridade da criação, da cultura da paz, do espírito e do diálogo inter-religioso e intercultural, para superar as relações desumanas e violentas;
  5. Buscar novos métodos, atitudes e linguagens na missão da Igreja de Cristo de levar a Boa Nova a cada pessoa, família e sociedade;
  6. Atuar profeticamente, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para o desenvolvimento integral da pessoa e na construção de uma sociedade justa e solidária.