A luz da Palavra

Palavra de Deus 2

4º DOMINGO DA QUARESMA 

15 de março de 2026
Leituras: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a / Ef 5,8-14 / Jo 9,1-41

Viver na luz de Deus

Na eleição de Davi (1ª Leitura), Deus quer contar com ele para a missão de servir ao povo como um governante justo. Sua unção aponta para o nosso batismo, pelo qual fomos revestidos de Cristo, pois Deus também conta conosco para levar adiante o seu plano de amor e justiça no mundo. Nisto consiste o viver como filhos da luz (2ª Leitura) em oposição às trevas: tudo o que prejudica o ser humano e a natureza. É-nos dada a liberdade de escolha: caminhar na luz ou nas trevas. Ao escolher a “luz” e aderir incondicionalmente a Jesus e à sua proposta libertadora, o ex-cego é o modelo que nos é proposto (Evangelho).

 

O cristão não pode se fechar num pessimismo estéril, decidindo que o mundo “está perdido” e que à nossa volta só há escuridão. Mas também não pode esconder a cabeça na areia e dizer que tudo está bem. Há situações, instituições, valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus e aos outros, gerando escuridão, trevas, alienação, cegueira e morte, que tornam o ser humano incapaz de se realizar plenamente. A cura do cego de nascença aponta sobretudo para a libertação das influências das ideologias dominantes. Somos cegos quando entramos no jogo da ambição de poder e deixamos de servir humildemente o próximo; quando nos consideramos superiores aos outros e quebramos a fraternidade; quando acumulamos para nós mesmos o que Deus ofereceu para a vida de todos. O evangelho quer garantir que a realização plena do homem é a prioridade de Deus. Por isso, seu Filho Jesus Cristo veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz libertadora. Aderir a esta proposta é viver na “luz”.

Passando das palavras aos atos Jesus dá a “luz” ao cego: o gesto de fazer lodo reproduz o ato criador de Deus (quando Deus amassou o barro e modelou o homem); a saliva transmitia a própria força ou energia vital (como o sopro de Deus, que deu vida a Adão). Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, criando um Homem Novo, animado pelo seu Espírito.  No entanto, a cura não é imediata: requer a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te nas águas de Siloé” (alusão à água de Jesus do domingo passado), que torna os homens novos, livres das trevas/escravidão. A disponibilidade do cego em obedecer à ordem de Jesus sublinha a sua adesão à proposta que Jesus lhe faz.

Contudo, diante da cura do cego, há na cena vários grupos que assumem diferentes formas de responder negativamente à “luz” libertadora que Jesus oferece, provocando em nós séria reflexão sobre a nossa identificação ou não com um deles:

a) Aqueles que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão instalados nas “trevas” da mentira, do egoísmo, da auto-suficiência e da escravidão e a “luz” de Jesus os incomoda. É o grupo dos fariseus. Ao constatar que o ex-cego não quer voltar à escravidão, expulsam-no da sinagoga, pois não pode haver compromisso entre as “trevas” e a “luz”.

b) Aqueles que têm medo de enfrentar as críticas e se deixam manipular pela opinião dominante, e, por medo, preferem continuar escravos do que arriscar ser livres. São os vizinhos e conhecidos do cego. Talvez até anseiem pelo encontro com Jesus, mas preferem viver na inércia, no comodismo, sem sair do seu “cantinho” para ir ao encontro da “luz”.

c) Aqueles que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, deixam que o comodismo os prendam numa vida de escravos. Preferem a segurança da ordem estabelecida (injusta e opressora) do que os riscos da vida livre. São os pais do cego. Representam os medrosos que preferem não provocar os dirigentes ou a opinião pública do que correr o risco de aceitar a proposta transformadora de Jesus. Constatam o acontecimento, mas evitam comprometer-se por medo de “serem expulsos da sinagoga”: perder os pontos de referência comunitários, cair na solidão, no ridículo, no descrédito e na marginalidade.

A Palavra de Deus convida-nos a um processo de renovação que nos leve a deixar tudo o que impede que brilhe em nós a “luz” de Deus e a nossa plena realização, entendendo que receber a “luz” que Cristo oferece é, também, acender a “luz” da esperança no mundo.



Perante situações injustas, dolorosas, a fé oferece-nos a luz que dissipa a escuridão. Não encontramos qualquer tipo de justificação social, moral ou de outro gênero para aceitar a carência de habitação. São situações injustas, mas sabemos que Deus está a sofrê-las juntamente conosco, está a vivê-las ao nosso lado. Não nos deixa sozinhos. É a fé que nos diz que Deus está conosco, que Deus está no meio de nós e a sua presença incita-nos à caridade; àquela caridade que nasce do apelo de um Deus que não cessa de bater à nossa porta, à porta de todos para nos convidar ao amor, à compaixão, a darmo-nos uns aos outros. Jesus continua a bater às nossas portas, à nossa vida. Não o faz magicamente, nem o faz com truques, com vistosos placares ou fogos de artifício. Jesus continua a bater à nossa porta no rosto do irmão, no rosto do vizinho, no rosto de quem vive junto de nós.

Nós acreditamos na força da Páscoa de Jesus e desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais — sem-terra, sem-teto, sem-pão, sem-saúde — lesadas em seus direitos”.

Para isso, todos os batizados — animadores fundamentais da CF — devem unir-se neste serviço à comunhão da Igreja no Brasil. Todos nós, caminhando juntos, motivaremos nossas comunidades a uma conversão concreta em vista do crescimento da fraternidade em nosso meio.

É importante encontrar e criar oportunidades para propor a reflexão da CF 2026 nas celebrações comunitárias, nas catequeses, nos conselhos diocesanos, paroquiais e comunitários, nos encontros e reuniões de pastorais e movimentos eclesiais, nas escolas e nas câmaras legislativas. O que importa é insistir no que é a CF em si mesma — um instrumento de comunhão eclesial, de formação das consciências, do comportamento cristão e do compromisso com a fraternidade.

Nas Sagradas Escrituras, Maria de Nazaré, mulher do povo, é a primeira morada da Nova Aliança, a mulher do “faça-se” (Lc 1,38). Nela, mãe e amparo dos desabrigados, verificaram-se os dramas da moradia. Ela conheceu, desde cedo, a experiência da moradia negada, pois “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Maria é migrante, pois, pelo abuso de poder de Herodes, teve que fugir para o Egito (Mt 2,13-15). Após algum tempo retorna a uma cidade estigmatizada: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Em Maria, o Deus transcendente se faz hóspede. A História da Salvação começa, nela, a ser tecida em cenário doméstico: entre o silêncio e o serviço, entre a fé que acolhe e o amor que se apressa.

Foi na casa de Isabel, lugar pobre, mas visitado pela Promessa, que Maria entoou o canto que perpassa gerações: “Deus depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os de condição humilde. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos sem nada” (Lc 1,52-53). O Magnificat, que, tantas vezes, é oração dos lábios, é também escola de um amor que se traduz em pés peregrinos e em mãos que servem. A espiritualidade mariana se compõe de escuta e de fala, de silêncio e de prece, do mesmo modo que de mãos operosas e de marcha a caminho, indo às casas onde falta pão, dignidade, afeto, espiritualidade, indo inclusive àqueles que nem casa têm para morar. Maria conjuga mística e profecia. Em sua boca se encontram a prática de vida, o louvor, a ternura e a justiça.

A nossa fé nos garante que o Reino já é dado em graça, mas só acontecerá se for construído, e esta construção tem um processo histórico, que exige a intervenção prática dos cristãos. Então, mãos à obra! É o Senhor quem nos envia, nos sustenta e nos conduz. Interceda por nós a Virgem Maria, e sua sagrada família, peregrina, refugiada, marginal e sem-teto.

Objetivo: Despertar a consciência sobre o direito à moradia digna como um direito fundamental e uma expressão concreta da fé cristã, promovendo a reflexão sobre a realidade habitacional no Brasil.

Foco: A campanha convida a olhar para as pessoas em sofrimento (sem teto, em habitações precárias) como irmãos, buscando aliviar essa dor e construir uma sociedade mais justa durante a Quaresma.

Cartaz: O cartaz da campanha traz a imagem da escultura “Cristo sem teto”, que representa Jesus como uma pessoa em situação de rua, com os pés marcados pela cruz, convidando a sentar ao seu lado.

Hino: O hino oficial destaca o compromisso com a moradia como um ato de fé, com a letra “Ele veio morar entre nós”.

Contexto: A campanha reforça a importância da moradia como espaço de dignidade para a família, para o pão partilhado e para a oração.